Santa Maria (DF) ganhou espaço no mapa do Distrito Federal ao longo das últimas décadas. Criada oficialmente como Região Administrativa XIII em 1993, a área deixou de ser associada apenas à expansão habitacional do sul de Brasília e passou a reunir população numerosa, comércio local, atividades industriais, logística e novos projetos de ocupação urbana.
O avanço não ocorreu de forma repentina. A história de Santa Maria está ligada à formação do território do Distrito Federal, à transferência da capital para Brasília e à necessidade de criar áreas destinadas à moradia de famílias que viviam em ocupações dispersas ou buscavam alternativas habitacionais próximas à capital.
Atualmente, a região se destaca pela localização próxima à BR-040, pelo acesso à Saída Sul e pela presença do Polo JK. Também chama atenção pela dimensão de sua população: a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada de 2024, elaborada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal, estimou 121.635 moradores na área urbana de Santa Maria.
Uma região formada antes da criação administrativa
O território de Santa Maria fazia parte de uma área que pertenceu ao estado de Goiás antes da criação de Brasília. De acordo com registros históricos reunidos pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal, há referências à ocupação da região desde o século XVIII, período relacionado à formação do antigo Arraial de Santa Luzia, atual Luziânia.
A ocupação histórica esteve associada aos cursos d’água que atravessam ou cercam a região, como os rios e ribeirões Santa Maria, Alagados, Saia Velha e Ponte Alta. Antes da urbanização mais intensa, o território reunia áreas rurais e núcleos ligados à produção agrícola e à ocupação tradicional do entorno do Distrito Federal.
Com a construção de Brasília, o crescimento populacional modificou a organização do território. A chegada de trabalhadores e de suas famílias aumentou a demanda por moradia, transporte, serviços públicos e áreas urbanizadas. Como ocorreu em outras regiões administrativas, a formação de Santa Maria foi influenciada por políticas de assentamento e pela expansão da ocupação urbana para além do Plano Piloto.
A criação da Região Administrativa de Santa Maria
O processo que levou à criação da região administrativa começou no início da década de 1990. Em 1990, o Governo do Distrito Federal instituiu um programa de assentamento voltado ao atendimento de famílias de baixa renda e à transferência de ocupações consideradas irregulares ou dispersas.
A Lei nº 348, de 4 de novembro de 1992, criou formalmente a Região Administrativa de Santa Maria. A medida foi regulamentada pelo Decreto nº 14.604, de 10 de fevereiro de 1993, que estabeleceu a RA XIII e definiu seus limites físicos.
A ocupação urbana começou pelas quadras 200 e pelas quadras 308, 309 e 310. Com o passar dos anos, o parcelamento foi ampliado e consolidado entre os ribeirões Alagado e Santa Maria. O desenho urbano foi organizado em torno de duas avenidas principais, a Alagado e a Santa Maria, que se tornaram eixos de circulação, comércio e serviços.
Esse processo ajuda a explicar uma característica importante da região: Santa Maria nasceu como área planejada para receber moradores, mas sua consolidação ocorreu gradualmente, acompanhando o crescimento da população e a instalação de novas estruturas urbanas.
População e diversidade social
Os dados mais recentes da PDAD-A 2024 mostram a dimensão alcançada por Santa Maria. A população urbana estimada foi de 121.635 pessoas, com idade média de 33,1 anos. O levantamento também apontou que 52,5% dos moradores eram do sexo feminino.
A pesquisa indica ainda a forte presença de moradores nascidos no próprio Distrito Federal. Segundo o levantamento, 61,4% da população declarou ter nascido no DF. Entre os residentes que nasceram fora da unidade federativa, a Região Nordeste representou a principal origem regional, com 63,4% desse grupo.
Esses dados refletem uma das marcas da formação social de Brasília: a presença de famílias vindas de diferentes partes do país e a criação de comunidades que, ao longo do tempo, desenvolveram vínculos próprios com o território. Em Santa Maria, a identidade local foi construída pela combinação entre moradores antigos, novas gerações nascidas no DF e famílias que chegaram em busca de moradia e oportunidades.
O tempo médio de moradia no Distrito Federal entre os residentes da região foi estimado em 25,7 anos. Já o tempo médio de permanência na própria Região Administrativa foi de 16,6 anos. Os números indicam que parte significativa da população tem trajetória prolongada no território e acompanha diretamente suas transformações.
O papel do Polo JK na economia local
Um dos principais fatores associados ao destaque de Santa Maria é a localização do Polo JK. O complexo está situado às margens da BR-040, em uma área estratégica para o deslocamento entre Brasília, os municípios do Entorno e outras cidades do Centro-Oeste.
O Polo JK reúne empresas ligadas principalmente aos setores industrial e logístico. Sua posição facilita o transporte de mercadorias e conecta a região a importantes vias de circulação. Essa característica ampliou o papel de Santa Maria na economia do Distrito Federal, que deixou de ser apenas residencial e passou a abrigar atividades produtivas com influência regional.
A área também é relevante para o deslocamento diário de trabalhadores. A proximidade com a BR-040 e com a Saída Sul cria uma ligação direta com o Plano Piloto, o Gama, outras regiões administrativas e municípios do estado de Goiás. Ao mesmo tempo, essa conexão reforça a dependência de parte dos moradores em relação a empregos e serviços localizados fora de Santa Maria.
O desenvolvimento econômico, portanto, ocorre em duas frentes. De um lado, há a expansão do comércio e dos serviços voltados à população local. De outro, existe a presença de empresas que atendem mercados mais amplos e utilizam a região como ponto de produção, armazenamento e distribuição.
Expansão urbana e planejamento territorial
O crescimento de Santa Maria também aparece nos estudos de planejamento urbano. A Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Distrito Federal aprovou um Estudo Territorial Urbanístico para uma área de expansão com 839 hectares. O documento foi elaborado para orientar o uso e a ocupação do solo, além de servir de base para projetos de regularização e licenciamento de atividades econômicas.
O estudo considerou uma população máxima estimada em até 122.740 habitantes na área analisada. A previsão não representa, por si só, um número de moradores já instalado, mas demonstra a dimensão do potencial de ocupação avaliado pelo poder público.
Instrumentos desse tipo são importantes porque procuram organizar a expansão antes da implantação de novos empreendimentos. Entre os temas considerados estão o sistema viário, a circulação, o zoneamento, os parâmetros urbanísticos e a distribuição de densidades. O objetivo é reduzir conflitos entre moradia, comércio, indústria, transporte e preservação ambiental.
A expansão, porém, também impõe desafios. O aumento da população exige ampliação da rede de saúde, educação, transporte público, saneamento, segurança e equipamentos de lazer. O planejamento precisa acompanhar o ritmo dos novos parcelamentos e garantir que a infraestrutura não fique concentrada apenas nas áreas mais antigas da região.
Serviços e formação de uma centralidade própria
Com o crescimento urbano, Santa Maria passou a desenvolver uma centralidade própria. A população encontra na região uma rede de comércio, escolas, unidades de atendimento, espaços esportivos e serviços públicos. Isso reduziu parte da necessidade de deslocamento para outras áreas, embora muitos moradores ainda trabalhem ou estudem fora da Região Administrativa.
Na área da saúde, a PDAD-A 2024 apontou que Santa Maria foi a última localidade procurada por 53,8% dos moradores que buscaram atendimento. O Plano Piloto apareceu em seguida, com 20,7%, e o Gama, com 11,6%. O dado sugere que a região passou a concentrar parte importante da demanda de seus próprios moradores, mas também revela a permanência de fluxos para centros mais estruturados.
Na educação, a pesquisa registrou que 96,6% da população com cinco anos ou mais declarou saber ler e escrever. Entre pessoas de 4 a 24 anos, 72,1% frequentavam a escola no período pesquisado. Esses indicadores ajudam a dimensionar a estrutura social da região, embora não substituam avaliações específicas sobre qualidade, oferta de vagas e deslocamento dos estudantes.
Cultura, memória e identidade local
O destaque de Santa Maria não se limita à população e à economia. A região também preserva referências culturais e paisagísticas que ajudam a formar sua identidade.
Entre os símbolos locais está o Monumento Solarius, conhecido popularmente como Chifrudo. A obra é associada à migração dos candangos e à construção de Brasília. O monumento foi apresentado pelo governo francês como homenagem ao processo de formação da nova capital e permanece como uma referência visual da região.
Santa Maria também abriga áreas naturais e pontos de interesse, como a Cachoeira do Tororó, além de locais relacionados aos ribeirões e às antigas áreas rurais. Festas, apresentações musicais e eventos comunitários completam esse conjunto de manifestações que aproximam os moradores e reforçam o sentimento de pertencimento.
A presença de áreas militares, rurais, industriais e residenciais faz com que Santa Maria tenha uma composição territorial diversificada. Essa combinação diferencia a região de áreas mais homogêneas do Distrito Federal e cria uma relação direta entre memória, infraestrutura, produção e vida cotidiana.
Uma trajetória de crescimento com desafios
A história de Santa Maria mostra como o Distrito Federal continuou se transformando depois da inauguração de Brasília. A região surgiu em um contexto de política habitacional e expansão urbana, mas adquiriu novas funções com o crescimento da população e a instalação de atividades econômicas.
Hoje, Santa Maria ocupa uma posição estratégica no sul do DF. A população numerosa, a proximidade com a BR-040, o Polo JK e a expansão de áreas residenciais ajudam a explicar por que a Região Administrativa ganhou destaque entre as regiões de Brasília.
O próximo capítulo dependerá da capacidade de conciliar crescimento e planejamento. A expansão urbana pode ampliar a oferta de moradia e empregos, mas também exige investimentos permanentes em mobilidade, saneamento, serviços públicos e proteção ambiental.
Mais de três décadas depois de sua criação oficial, Santa Maria deixou de ser apenas uma área de assentamento. A Região Administrativa se consolidou como um território com história própria, população expressiva e participação crescente na dinâmica econômica e urbana do Distrito Federal.