Brazlândia, no Distrito Federal, combina uma trajetória anterior à construção de Brasília com paisagens do Cerrado, áreas rurais produtivas e tradições mantidas por diferentes gerações. A região administrativa, localizada na porção oeste do DF, é uma das áreas mais antigas do território brasiliense e conserva características que a distinguem do núcleo urbano do Plano Piloto.
Enquanto Brasília é associada à arquitetura modernista e à transferência da capital federal, Brazlândia preserva uma história ligada à ocupação rural, às antigas famílias de agricultores e pecuaristas e à formação de comunidades que contribuíram para a identidade do Distrito Federal. A produção de morangos, hortaliças, frutas e flores também passou a ocupar espaço importante na economia e no calendário cultural da região.
Uma cidade anterior à construção de Brasília
A origem de Brazlândia remonta ao século XIX. O povoado inicial foi formado em uma área conhecida como Chapadinha, na região da chapada do Vão dos Angicos, que integrava o município goiano de Santa Luzia, atual Luziânia. No início do século XX, famílias de agricultores e pecuaristas vindas de Goiás e de Minas Gerais se estabeleceram no local.
Em 1932, foi criado o distrito de Brazlândia. No ano seguinte, em 5 de junho de 1933, foi instalada a subprefeitura que deu origem à data tradicionalmente utilizada como marco de fundação da cidade. O nome Brazlândia está associado à família Braz de Lima, uma das famílias mais numerosas entre os primeiros moradores da região. (pdad.ipe.df.gov.br)
A formação de Brazlândia ocorreu, portanto, antes da inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960. Quando a nova capital começou a ser construída, a localidade já tinha vínculos comunitários, atividades econômicas e referências próprias. A movimentação provocada pelas obras de Brasília trouxe novos moradores e alterou as relações da região com o restante do território.
Em 1964, Brazlândia passou a integrar oficialmente o conjunto das primeiras regiões administrativas do Distrito Federal, ao lado de Brasília, Taguatinga, Planaltina, Sobradinho, Gama, Jardim e Paranoá. A medida consolidou a incorporação administrativa da cidade ao DF e marcou uma nova etapa de sua história. (atlas.ipe.df.gov.br)
Produção agrícola e identidade rural
A agricultura é um dos elementos centrais da identidade de Brazlândia. A região mantém áreas de produção rural que abastecem parte do mercado do Distrito Federal com hortaliças, frutas, flores e outros produtos. Essa vocação ajuda a explicar o ritmo de vida mais interiorano atribuído à cidade e a presença de propriedades rurais próximas ao núcleo urbano.
O morango se tornou o principal símbolo dessa atividade. A expansão do cultivo ocorreu especialmente a partir da década de 1990, quando produtores, entidades rurais e órgãos de assistência técnica organizaram iniciativas para divulgar a produção e estimular o consumo. A Festa do Morango de Brasília nasceu nesse contexto e passou a reunir produtores, expositores, artesãos, cozinheiros e visitantes.
O evento também registra a influência da comunidade japonesa na agricultura local. Famílias de imigrantes contribuíram para o desenvolvimento de técnicas de cultivo e para a consolidação da produção de morangos na região. Em 2025, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional participou do lançamento de um inventário participativo sobre a festa, elaborado a partir de relatos, encontros comunitários e registros relacionados à produção agrícola e cultural de Brazlândia. (gov.br)
Mais do que uma celebração gastronômica, a Festa do Morango funciona como espaço de encontro entre a cidade e o campo. O evento costuma apresentar produtos in natura, doces, bebidas, preparações culinárias, exposições agrícolas, artesanato e atividades culturais. Dessa forma, a festa ajuda a tornar visível o trabalho dos produtores e reforça a relação entre alimentação, economia e memória comunitária.
Natureza protegida e paisagens do Cerrado
A paisagem de Brazlândia inclui áreas de Cerrado, matas de galeria, veredas, nascentes, rios, córregos e formações de relevo acidentado. Parte desse patrimônio natural está relacionada à Área de Proteção Ambiental de Cafuringa, unidade de conservação criada em 1988 e associada a trechos do território de Brazlândia, Sobradinho II e Fercal.
A APA de Cafuringa é reconhecida pela diversidade de ambientes naturais e pela presença de cachoeiras, cavernas, campos e áreas florestais. O Brasília Ambiental cita, entre os atrativos e referências ambientais da região, o Poço Azul, as cachoeiras do Rio da Palma, as quedas d’água de Mumunhas e do Ribeirão Dois Irmãos, além de cavernas e formações rochosas. (ibram.df.gov.br)
O relevo e a disponibilidade de água favorecem atividades de contato com a natureza, como caminhadas, observação de paisagens, banho em áreas autorizadas e visitas a propriedades de turismo rural. No entanto, a existência de atrativos naturais não significa que todos os pontos tenham a mesma estrutura de acesso, sinalização ou segurança. A visitação deve respeitar as regras de cada local e evitar danos à vegetação, às nascentes e aos cursos d’água.
Na área urbana, o Parque Ecológico Veredinha representa uma ligação entre conservação ambiental e vida comunitária. Com cerca de 56 hectares, o parque protege nascentes e remanescentes do Cerrado ao longo do Córrego Veredinha. A unidade possui matas de galeria, cerrado típico, veredas úmidas, trilhas interpretativas, viveiro comunitário e espaços utilizados para lazer, educação ambiental e atividades culturais. (ibram.df.gov.br)
Água, agricultura e ocupação do território
A presença de rios, córregos e nascentes tem importância ambiental e econômica para Brazlândia. A água sustenta áreas de produção agrícola, contribui para a formação de ambientes naturais e influencia a ocupação histórica da região. Ao mesmo tempo, a expansão urbana, o parcelamento irregular do solo e a pressão sobre áreas rurais e de conservação representam desafios para a proteção dos recursos naturais.
Os documentos ambientais do Distrito Federal apontam que a APA de Cafuringa abriga diferentes tipos de vegetação do Cerrado e espécies de fauna nativa. A unidade também possui áreas de importância geológica, com ocorrência de calcário e cavernas. Esse conjunto faz de Brazlândia uma região relevante para a conservação ambiental, mas exige planejamento para conciliar produção, moradia, turismo e proteção dos ecossistemas. (ibram.df.gov.br)
A preservação depende de ações públicas, fiscalização, educação ambiental e participação dos moradores. Também envolve escolhas cotidianas de visitantes e produtores, como o descarte correto de resíduos, o respeito às áreas de preservação permanente e a prevenção de queimadas. Em uma região onde a economia e a paisagem estão diretamente ligadas à água e ao solo, os impactos ambientais podem afetar tanto a biodiversidade quanto a produção agrícola.
Festas e tradições que atravessam gerações
A cultura de Brazlândia é marcada por festas religiosas, celebrações agrícolas, encontros comunitários e atividades ligadas à vida rural. Entre essas manifestações, a Festa do Morango ocupa posição de destaque por reunir aspectos econômicos, culturais e gastronômicos em um mesmo evento.
A tradição da festa acompanha a transformação da produção de morangos em uma das principais referências da cidade. O evento contribuiu para aproximar os consumidores dos produtores e criou um espaço de valorização do trabalho rural. Também abriu oportunidades para a comercialização de alimentos, artesanato e produtos derivados do morango.
A participação de descendentes de imigrantes japoneses é outro componente da memória agrícola local. A presença dessas famílias não se limita à produção: ela também aparece nas narrativas sobre a formação da comunidade, nas técnicas utilizadas no campo e na diversidade cultural que caracteriza o Distrito Federal. O inventário participativo desenvolvido com apoio do Iphan registra justamente essa dimensão coletiva da festa e de seus organizadores. (gov.br)
A religiosidade também integra o cotidiano da região. Igrejas, santuários, celebrações e festas de caráter comunitário funcionam como pontos de encontro e ajudam a preservar vínculos entre moradores antigos e novos habitantes. Essas manifestações convivem com a produção rural, os passeios em áreas naturais e as atividades culturais promovidas ao longo do ano.
Uma Brazlândia além do estereótipo de cidade rural
Embora a agricultura continue sendo uma referência essencial, Brazlândia não pode ser resumida apenas à produção de morangos ou ao perfil rural. A região reúne patrimônio histórico, áreas de conservação, espaços de lazer, manifestações religiosas e experiências culturais que refletem diferentes momentos da ocupação do Distrito Federal.
Sua localização, distante do centro de Brasília, contribuiu para a preservação de uma paisagem e de um modo de vida distintos dos encontrados no Plano Piloto. Ao mesmo tempo, a expansão do Distrito Federal aproximou a cidade de novos fluxos de moradores, visitantes e consumidores. Esse processo criou oportunidades para o turismo rural e de natureza, mas também ampliou a necessidade de planejamento e proteção ambiental.
Conhecer Brazlândia é, portanto, observar uma parte da história de Brasília que começou antes da capital federal. É reconhecer o papel das famílias pioneiras, dos agricultores, das comunidades de imigrantes, dos trabalhadores do campo e dos moradores que mantêm vivas as festas e as referências locais.
Entre áreas de Cerrado, nascentes, parques, propriedades rurais e celebrações tradicionais, Brazlândia preserva uma identidade própria dentro do Distrito Federal. Sua história mostra que Brasília não se resume ao conjunto monumental projetado no centro da capital: também é formada por cidades e comunidades que guardam memórias, paisagens e tradições construídas ao longo de muitas décadas.








