segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Cidades

Estrutural (DF): história e transformações de uma região marcada pelo trabalho dos catadores

A história da Estrutural, no Distrito Federal, está ligada à formação de uma comunidade de catadores nas proximidades do antigo lixão de Brasília. Desde os primeiros barracos, na década de 1960, a região passou por crescimento populacional, reconhecimento oficial, obras de urbanização e pelo encerramento das atividades do Aterro Controlado do Jóquei, em 2018.

A história da Estrutural, no Distrito Federal, está diretamente relacionada à expansão de Brasília, à destinação dos resíduos produzidos pela capital e à trajetória de milhares de trabalhadores que encontraram na coleta de materiais recicláveis uma forma de sobrevivência. O território, inicialmente ocupado por barracos próximos ao antigo lixão, transformou-se em uma região administrativa reconhecida pelo governo local e passou a reunir moradias, comércio, serviços públicos e atividades industriais.

Essa transformação, no entanto, não ocorreu de maneira linear. A ocupação cresceu em uma área marcada por restrições ambientais, pela proximidade com o Parque Nacional de Brasília e por problemas de infraestrutura urbana. Ao longo das décadas, a população passou a reivindicar regularização, saneamento, pavimentação, equipamentos públicos e melhores condições de trabalho para os catadores.

O encerramento do Aterro Controlado do Jóquei, em 20 de janeiro de 2018, representou uma das principais mudanças na história recente da região. A medida alterou a relação entre a cidade e o espaço de disposição de resíduos, mas também exigiu novas políticas para os trabalhadores que dependiam da atividade de catação.

O início da ocupação ao redor do lixão

A ocupação da área conhecida atualmente como Estrutural começou a se formar na década de 1960, quando o local passou a ser utilizado para a disposição de resíduos sólidos urbanos do Distrito Federal. A presença do lixo atraiu catadores, que recolhiam materiais reaproveitáveis para venda ou reutilização.

Os primeiros moradores construíram abrigos improvisados nas proximidades do depósito. De acordo com registros reunidos pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal, os barracos surgiram poucos anos depois do início da utilização do espaço como área de descarte. As moradias eram erguidas com madeira, plástico, papelão e outros materiais encontrados no próprio local.

A proximidade com o lixão facilitava o acesso aos materiais recicláveis, mas expunha os trabalhadores e suas famílias a riscos ambientais e sanitários. A atividade era realizada em condições precárias, sem a estrutura de segurança que hoje é prevista para o trabalho com resíduos. Ainda assim, a catação tornou-se a principal base econômica da ocupação e ajudou a formar redes de vizinhança e solidariedade.

Durante os anos 1970 e 1980, a comunidade permaneceu relativamente pequena, mas continuou crescendo. O avanço da urbanização de Brasília, a busca por moradia e a ausência de alternativas habitacionais contribuíram para a expansão do núcleo. A ocupação passou a ser conhecida como Vila Estrutural, nome associado à Via Estrutural, rodovia que corta a região e conecta áreas do Distrito Federal.

Crescimento populacional e conflitos sobre a permanência

No início da década de 1990, a área ainda era formada por um número reduzido de barracos, mas já havia preocupação do poder público com a permanência das famílias. A localização próxima ao lixão, ao Parque Nacional de Brasília e a estruturas de transporte de combustível estava entre os fatores utilizados para defender a remoção da ocupação.

Foram discutidas alternativas para transferir os moradores para outros locais. As tentativas, porém, não impediram o crescimento da comunidade. A permanência das famílias, a falta de uma solução habitacional abrangente e a organização dos moradores contribuíram para que a ocupação se consolidasse.

A partir desse período, a história da Estrutural passou a envolver duas disputas simultâneas. De um lado, o governo buscava ordenar o território e reduzir os riscos ambientais e urbanos. De outro, os moradores reivindicavam o direito de permanecer na área onde haviam construído suas casas, relações comunitárias e meios de subsistência.

A expansão também coincidiu com mudanças na organização territorial do Distrito Federal. Em 1999, foi instalado o Setor Complementar de Indústria e Abastecimento, o SCIA, inicialmente vinculado à Região Administrativa do Guará. A criação do setor ampliou a presença institucional do governo e estabeleceu uma referência administrativa para a área.

Reconhecimento oficial como região administrativa

Em janeiro de 2004, a Lei nº 3.315 criou oficialmente a Região Administrativa XXV, denominada SCIA-Estrutural, tendo a Vila Estrutural como sede urbana. O reconhecimento não eliminou os problemas existentes, mas marcou a passagem de uma ocupação tratada como irregular para uma área incluída na estrutura administrativa do Distrito Federal.

A criação da região administrativa permitiu organizar a oferta de serviços públicos e consolidou a Estrutural como parte do mapa oficial de Brasília. A área também passou a incluir a Cidade do Automóvel, núcleo voltado principalmente a atividades comerciais e de serviços relacionados ao setor automotivo.

Em 2006, a Vila Estrutural foi declarada Zona Especial de Interesse Social. A medida abriu caminho para processos de regularização fundiária e urbanística, desde que fossem observadas as restrições ambientais e as exigências previstas nos estudos de impacto. A regularização, portanto, foi vinculada à necessidade de controlar os efeitos da ocupação sobre o solo, a água, o ar e as áreas protegidas do entorno.

O reconhecimento administrativo veio acompanhado de uma mudança gradual na paisagem. Ruas receberam intervenções, novas moradias foram construídas e equipamentos públicos passaram a fazer parte do cotidiano local. A expansão do comércio também modificou a economia da região, que deixou de depender exclusivamente das atividades ligadas ao lixão.

Urbanização e formação de uma cidade

A transformação da Estrutural em área urbana ocorreu por etapas. A abertura e a melhoria de vias, a implantação de redes de infraestrutura e a construção de escolas contribuíram para reduzir o isolamento da comunidade. Ao mesmo tempo, o crescimento não foi acompanhado na mesma velocidade por todos os serviços necessários à população.

O comércio local ganhou importância à medida que a população aumentou. Pequenos estabelecimentos passaram a atender necessidades básicas dos moradores, enquanto atividades de prestação de serviços ampliaram as oportunidades de trabalho dentro da própria região. Dados divulgados pelo governo federal apontam a existência de milhares de estabelecimentos comerciais na cidade, com predominância de serviços gerais.

A educação também passou a ocupar um papel relevante na nova configuração da Estrutural. A região abriga unidades da rede pública de ensino e o Campus Estrutural do Instituto Federal de Brasília, instituição voltada à educação profissional, técnica e tecnológica. A presença desses equipamentos ampliou as possibilidades de formação para jovens e adultos.

Apesar dos avanços, a urbanização não apagou as marcas do processo de ocupação. A infraestrutura ainda precisou ser ampliada e qualificada em diferentes momentos, especialmente em áreas com maior densidade de moradias. Questões relacionadas ao saneamento, à mobilidade, à drenagem, à pavimentação, à segurança e ao acesso a espaços de lazer continuaram presentes no debate público.

O papel dos catadores na história da região

Os catadores de materiais recicláveis ocupam uma posição central na formação da Estrutural. Foram eles que primeiro estabeleceram moradia nas proximidades do depósito de resíduos e organizaram uma atividade econômica que sustentou muitas famílias por décadas.

A catação também contribuiu para a recuperação de materiais que poderiam ser reaproveitados, embora durante muito tempo tenha sido realizada em condições de risco e sem reconhecimento profissional adequado. A trajetória da região mostra como a gestão de resíduos, o mercado de reciclagem e a política habitacional estiveram ligados desde a origem da ocupação.

Com a perspectiva de fechamento do lixão, o governo do Distrito Federal passou a discutir alternativas para a inclusão socioprodutiva dos trabalhadores. Entre as medidas adotadas estiveram a criação ou o fortalecimento de cooperativas, a contratação de grupos para serviços de coleta seletiva e a instalação de galpões de triagem em diferentes pontos do DF.

A mudança, contudo, não significou o fim da atividade dos catadores. O trabalho foi deslocado para estruturas destinadas à triagem e à coleta seletiva, em um modelo que buscava reduzir a exposição aos resíduos e oferecer melhores condições de organização. A adaptação exigiu investimentos, capacitação e acompanhamento das cooperativas.

O fechamento do lixão em 2018

O Aterro Controlado do Jóquei, conhecido como lixão da Estrutural, recebeu resíduos domiciliares do Distrito Federal por décadas. Embora fosse chamado de aterro controlado nos anos finais de operação, o local acumulou problemas ambientais e sociais associados à disposição de lixo a céu aberto.

O fechamento definitivo ocorreu em 20 de janeiro de 2018. Segundo o Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal, a área deixou de receber resíduos domiciliares e públicos e passou por ações de cobertura, compactação e conformação do terreno. O objetivo era reduzir os impactos associados à presença de resíduos expostos, como a geração de chorume, a dispersão de gases e a presença de animais.

Após o encerramento das atividades, foi inaugurada, em 29 de janeiro de 2018, uma Unidade de Recebimento de Entulho no local. A unidade passou a receber resíduos da construção civil, podas e galhadas, em vez do lixo domiciliar que anteriormente era levado ao aterro.

O fim do lixão foi apresentado pelo governo como uma mudança na política de resíduos do Distrito Federal. Para os moradores, entretanto, o encerramento também representou uma ruptura econômica e social. Muitas famílias dependiam direta ou indiretamente da movimentação do local, e a transição exigiu políticas de apoio para evitar a perda abrupta de renda.

Uma nova relação com o território

Depois do fechamento do lixão, a Estrutural passou a ser associada cada vez mais à busca por uma identidade urbana própria. A região deixou de ser apenas o lugar onde funcionava o principal depósito de resíduos de Brasília e passou a ser reconhecida por suas escolas, comércios, instituições, atividades culturais e redes comunitárias.

Essa mudança de imagem, porém, convive com a memória do antigo aterro. O espaço continua influenciando a paisagem e a percepção externa sobre a cidade. Para muitos moradores, a história da região não pode ser reduzida ao lixo: ela também envolve trabalho, organização comunitária, formação de famílias e reivindicação por direitos.

O processo de transformação permanece incompleto. A regularização urbana, a recuperação ambiental da área do antigo lixão, a ampliação dos serviços públicos e a geração de emprego continuam entre os temas relacionados ao futuro da Estrutural.

Compreender a história da Estrutural é, portanto, observar uma das faces mais complexas da formação de Brasília. A cidade nasceu de uma necessidade econômica ligada aos resíduos, cresceu em meio a conflitos fundiários e ambientais e foi incorporada ao planejamento oficial depois de décadas de mobilização. Sua trajetória revela como a expansão urbana do Distrito Federal também foi construída por trabalhadores e comunidades que permaneceram fora do centro político e simbólico da capital.

A Estrutural reúne, ao mesmo tempo, a memória do antigo lixão, a experiência dos catadores e os sinais de uma cidade em transformação. O desafio atual é fazer com que o reconhecimento administrativo se converta em condições urbanas duradouras, proteção ambiental e oportunidades para os moradores que ajudaram a construir a região.

As informações históricas e administrativas foram baseadas em levantamentos do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal, em registros do Serviço de Limpeza Urbana e em documentos do governo federal. (pdad.ipe.df.gov.br)