Os critérios usados para definir o que deve ser ouvido e quem ocupa funções de criação no audiovisual brasileiro são examinados no dossiê A Cor do Som. O estudo relaciona padrões técnicos de produção sonora, formas de falar e relações de trabalho a manifestações de racismo no setor.
Entre os pontos analisados está a busca por um áudio considerado mais “limpo”, com a retirada de ruídos e interferências associados à rua, à praça e a outros espaços populares. O levantamento também aborda a valorização da norma-padrão da língua e os relatos de profissionais negros sobre remuneração, reconhecimento e acesso a postos criativos.
O que é considerado adequado
Segundo os pesquisadores, a produção de áudio no Brasil segue um paradigma de origem europeia, colonial e elitista. Nesse modelo, operadores de som receberiam orientações para seguir regras que levam à produção de um som o mais “higienizado” possível.
O dossiê avalia que esse padrão pode descartar ruídos periféricos e marcas culturais afro-brasileiras. A pesquisa também questiona a ideia de neutralidade técnica nas produções sonoras, ao afirmar que escolhas sobre o que permanece ou é retirado do áudio não estão separadas das referências culturais adotadas no setor.
O estudo ressalta, ao mesmo tempo, que não existe uma “voz de preto” ou uma “voz de branco”. A conclusão considera a diversidade dos timbres humanos e diferencia essa variedade das regras sociais e profissionais que podem classificar determinadas vozes, sotaques ou formas de expressão como mais adequadas.
Hierarquias entre formas de falar
Na linguagem dos produtos audiovisuais, os autores identificam a prevalência de uma norma-padrão que estabelece hierarquias entre diferentes maneiras de falar. Para o dossiê, esse processo reduz a pluralidade linguística à ideia de erro.
A pesquisa menciona o conceito de “Pretuguês”, associado à intelectual e ativista Lélia Gonzalez (1935-1994), para descrever formas de falar português influenciadas por elementos fonéticos e sintáticos de línguas africanas. O estudo cita, entre os exemplos, a troca do “L” pelo “R” em palavras como “problema” e a substituição do “LH” pelo “I”, como em “falha”.
Relatos sobre trabalho e reconhecimento
Nas entrevistas, profissionais negros relataram receber menos que pessoas brancas em funções equivalentes e disseram enfrentar dificuldade para cobrar valores compatíveis com a própria qualificação. Também foram mencionadas contratações associadas à aceitação de remunerações menores, a necessidade de trabalhar mais para demonstrar competência e a falta de reconhecimento por projetos desenvolvidos.
Um profissional da área criativa contou que acumulava tarefas de produção de palco, ligações telefônicas, edição e captação. De acordo com o relato, depois de reivindicar remuneração compatível com o trabalho, foi demitido por e-mail e substituído por uma influenciadora branca.
Outro entrevistado afirmou que, embora fosse responsável pelo desenvolvimento de um projeto e trabalhasse mais que os demais, era a pessoa menos ouvida. O dossiê também registra a avaliação de que profissionais negros são mais direcionados a trabalhos técnicos e braçais, enquanto funções de criação e tomada de decisão permanecem majoritariamente associadas a pessoas brancas.
Identidade racial e classificação das obras
O levantamento descreve ainda situações em que profissionais são identificados principalmente pela raça. Um dos entrevistados afirmou que ser chamado continuamente de “o negro” de determinado espaço pode funcionar como uma forma de aprisionamento, inclusive em áreas como jornalismo, roteiro e escrita.
Outra questão apontada é a associação de produções feitas por pessoas negras a um público específico. Segundo os pesquisadores, essa classificação contribui para que essas obras sejam tratadas como “de nicho”, enquanto produções feitas por pessoas brancas seriam vistas como destinadas ao público geral. Um dos profissionais ouvidos resumiu essa percepção ao dizer que tudo o que pessoas pretas falam seria considerado de interesse apenas de pessoas pretas.
Base do levantamento
O dossiê foi elaborado pela Semiótica Antirracista e pelo Estúdio Nina, instituições privadas que atuam em iniciativas relacionadas ao combate ao racismo. O trabalho recebeu apoio da empresa Audiolivros e foi lançado no início do Novembro Negro, período dedicado à Consciência Negra.
Foram ouvidas 24 pessoas: 18 profissionais negros das áreas técnica e criativa do audiovisual, quatro acadêmicos e duas personalidades envolvidas no debate racial. Os nomes das duas últimas não foram divulgados. A pesquisa é qualitativa e reúne percepções dos entrevistados; portanto, não apresenta dados quantitativos sobre a frequência das situações descritas no setor.
Fonte: Agência Brasil Direitos Humanos.
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil








